Em muitos casos, a utilização dos fungicidas para o manejo de doenças de plantas se apresenta como a única opção eficiente e econômica para alcançar boas produtividades.

De modo geral, os fungicidas têm sido empregados com maior frequência nas regiões economicamente mais desenvolvidas. Nestes locais, existe uma maior tendência ao desenvolvimento da agricultura de precisão.

Entretanto, com o aumento das fronteiras agrícolas no Brasil e do número de safras por ano, o nosso país se tornou um dos maiores consumidores de fungicidas do mundo.

Segundo o último levantamento da FAO (Food and Agriculture Organization), publicado no ano de 2016, o Brasil consumiu aproximadamente 59.124 toneladas de fungicidas.

Caso os fungicidas não fossem empregados na agricultura, as estimativas são de que teríamos uma redução de cerca de 7,5% da produção mundial de alimentos.

A incidência de fungos fitopatogênicos está se tornando mais frequente nas lavouras comerciais, mesmo em culturas onde historicamente não representavam limitações econômicas.

Em regiões de clima tropical, como o Brasil, a frequência com que as doenças ocorrem é bem maior.

Os genótipos de plantas cultivados em todo mundo apresentam, de modo geral, uma boa performance agronômica. Entretanto, a maioria deles estão sujeitos a diversos agentes fitopatogênicos.

Estima-se que cerca de 65% destes fitopatógenos sejam fungos, os quais exigem aplicações de fungicidas para o seu controle.

A exploração econômica em larga escada de culturas como uvas, morango, tomate, maçã, arroz e pimentão, por exemplo, seria impraticável sem a utilização de fungicidas, principalmente, em regiões ou estações do ano mais propensas ao aparecimento de doenças.

Recentemente, a cultura da soja também entrou nesta lista, devido a ocorrência da ferrugem asiática no Brasil.

Atualmente, a ferrugem é a principal doença da cultura, sendo causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi.

A ferrugem asiática tem potencial para causar redução de produtividade na soja de até 75%.

Sendo assim, para que se alcancem boas produtividades é essencial que se empregue o controle químico.

A cultura da soja é hoje a mais importante para a agricultura brasileira, e o custo com a ferrugem asiática, incluindo as perdas com grãos e o valor gasto com os fungicidas, é estimado, em cerca de U$ 2 bilhões de dólares por safra.

A evolução dos fungicidas até os dias atuais

Ao longo dos anos, o desenvolvimento dos fungicidas no tempo permitiu uma divisão dos mesmos em três gerações, de acordo com características de cada época.

 

Fungicidas de 1ª Geração

Tiveram origem em meados de 1880, com a descobrimento da calda bordalesa pelo botânico francês, Pierre Aléxis Millardet.

A calda bordalesa é considerada o 1º fungicida criado pelo homem para o manejo de doenças de plantas, causadas por fungos.

Este fungicida foi descoberto para o manejo do míldio da videira, causado pelo oomiceto Plasmopara viticola.

Atualmente, a calda bordalesa ainda é usada por muitos viticultores ao redor do mundo.

Os fungicidas de 1ª Geração são representados principalmente pelos fungicidas protetores. Destacam-se aqui os fungicidas à base de cobre (Cu) e enxofre (S), ambos largamente empregados na agricultura.

 

Fungicidas de 2ª Geração

Os organomercuriais foram os primeiros fungicidas da 2ª Geração. Durante a década de 1930, Tisdale e Willian descreveram a fungitoxicidade dos ditiocarbamatos.

A 2ª Geração é composta por fungicidas protetores orgânicos, os quais foram utilizados para o manejo de doenças em meados de 1940.

Os ditiocarbamatos marcaram a era dos fungicidas orgânicos.

Estes fungicidas são até hoje largamente utilizados no controle de doenças de plantas, pois apresentam largo espectro de ação contra fitopatógenos.

Os principais fungicidas dessa geração são:

  • Ditiocarbamatos
  • Nitrogenados heterocíclicos
  • Dinitrofenóis
  • Nitrobenzenos halogenados
  • Orgânicos à base de enxofre
  • Derivados de antraquinona e acetamida

 

Fungicidas de 3ª Geração

Compõem os fungicidas sistêmicos, esta geração iniciou em 1964 devido a divulgação das características de sistematicidade do tiabendazol.

Contudo, o seu sucesso somente iniciou após a descoberta do carboxin e do benomil, no final dos anos 60.

Os fungicidas sistêmicos apresentam características diferente dos produtos existentes nas gerações anteriores, pois são mais específicos em seu mecanismo de ação e são tóxicos em baixíssimas concentrações.

Os principais grupos de fungicidas dessa geração são:

  • Carboxamida
  • Benzimidazóis
  • Dicarboxamidas
  • Inibidores da biossíntese de esteróis
  • Inibidores de oomicetos
  • Inibidores da síntese da melanina
  • Fosforados orgânicos
  • Antibióticos
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Como os fungicidas são classificados

Existem diversos mecanismo para classificar os fungicidas, como:

  • Princípio geral de controle
  • Mobilidade na planta
  • Grupo químico
  • Mecanismo de ação
  • Classificação toxicológica

A classificação a partir do Princípio geral de controle, permite a separação dos fungicidas de acordo com as suas características de aplicação:

  • Fungicidas erradicantes (contato): agem diretamente sobre os fitopatógenos. Estes fungicidas possuem atuação erradicante eficiente, principalmente, no tratamento de sementes e aplicações no solo. Dentre estes fungicidas, os principais são: brometo de metila, formol, cloropicrina, dazomete e isotiocianato de metila.
  • Fungicidas protetores (residuais): quando aplicados em plantas suscetíveis, atuam formando uma camada superficial, que protege as plantas antes que o inóculo chegue até ela. Os principais fungicidas são: à base de S e Cu, ditiocarbamatos, etilenoditiocarbamatos, compostos aromáticos e os compostos heterocíclicos nitrogenados.
  • Fungicidas curativos (imunizantes): agem diretamente na planta infectada, reduzindo os sintomas ou os danos provocados pelos fitopatógenos. Estes fungicidas têm ação dirigida contra o patógeno após o seu estabelecimento. São exemplos de fungicidas curativos: carboxamidas, benzimidazóis, inibidores da biossíntese de esteróis, entre muitos outros.

De acordo com a Mobilidade na planta, os fungicidas podem ser classificados como:

  • Imóvel: o fungicida não apresenta mobilidade dentro da planta
  • Sistêmico: o fungicida atinge os vasos das plantas, de onde é translocado por toda a planta.
  • Mesostêmico/Translaminar: ao chegar na folha, o fungicida é redistribuído sobre a superfície ou atravessa a lâmina foliar, entretanto, sem translocação via vasos.

A classificação dos fungicidas de acordo com o Grupo químico não é utilizada com frequência, contudo separa-os em Fungicidas Orgânicos e Inorgânicos.

Atualmente, um dos modos mais simples para classificar um fungicida é baseado na sua Classificação Toxicológica, que leva em consideração a sua nocividade aos organismos não alvo.

De acordo com legislação brasileira, os fungicidas podem ser classificados em 4 classes toxicológicas. Em cada nível de toxicidade, o fungicida recebe, na sua embalagem, uma tarjeta colorida.

Cada cor corresponde a um nível de toxicidade diferente:

Os mecanismos de ação dos fungicidas

Os ingredientes ativos dos fungicida atuam em sítios específicos dos fitopatógenos, de acordo com o seu mecanismo de ação.

A sua ação desencadeia uma série de processos bioquímicos ou biofísicos, que levam os patógenos à falência funcional e morte.

O conhecimento sobre os mecanismos de ação dos fungicidas é de suma importância para o manejo fitossanitário de uma lavoura.

Isso evita que fungicidas com o mesmo mecanismo de ação sejam aplicados ao mesmo tempo, no manejo de uma mesma lavoura.

Além disso, facilita a rotação dos fungicidas com diferentes modos de ação.

No controle de doenças de plantas é importante que fungicidas com mesmo mecanismos de ação não sejam repetidos em aplicações de produtos de mesmo grupo, na mesma lavoura.

Deste modo, evita-se a seleção de patógenos resistentes, o que futuramente pode causar a redução da eficácia dos fungicidas.

Atualmente, a FRAC-BR (Fungicide Resistance Action Committee ou Comitê Brasileiro de Ação a Resistência a Fungicidas) divide os fungicidas em grupos de acordo com o sítio de ação, seguindo um código de cores:

Este sistema de classificação em cores visa facilitar a rotação de ingredientes ativos e dos mecanismos de ação dos fungicidas, pois na prática é quase impossível se ter conhecimento técnico acerca de todos os fungicidas disponíveis no mercado brasileiro.

Além disso, o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) regulamentou os rótulos dos produtos fitossanitários.

Obrigando os fabricantes a deixar escrito no rótulo dos produtos, o modo de ação dos agrotóxicos.

A partir de 2017, os rótulos dos fungicidas passaram a trazer um retângulo logo abaixo da composição do produto, com a identificação do modo de ação.

O modelo abaixo, detalha como devem ser os rótulos dos fungicidas.

Notem que após o nome “GRUPO“, está a denominação do grupo ao qual o produto pertence, neste caso o C2 e G1.

Essa simbologia é utilizada pelo Sistema de Classificação Internacional Unificado.

As letras que identificam os Grupos permitem uma distinção maior entre os modos de ação, enquanto que os números identificam subgrupos que definem cada mecanismo de ação.

O grupo G1, por exemplo, corresponde aos fungicidas DMI (inibidores da desmetilação), que atuam no sítio C14-desmetilase na biossíntese de esterol (erg11/cyp51).

Os fungicidas representados por este grupo são:

  • Imidazol
  • Piperazina
  • Piridina
  • Pirimidina
  • Triazol
  • Triazolintiona

Como evitar o surgimento de resistência aos fungicidas

Para que os fungicidas continuem efetivos ao longo dos anos, são necessários alguns cuidados durante o planejamento do manejo das doenças de plantas.

Estas medidas, buscam evitar que o controle de doenças fique menos efetivo ao longo do tempo, devido ao desenvolvimento de resistência dos fungos aos princípios ativos dos fungicidas.

No Brasil, a FRAC é o órgão responsável pelo monitoramento da resistência dos fitopatógenos aos fungicidas.

Com base em anos de observações e estudos, a FRAC recomenda algumas alternativas de manejo, para evitar a resistência dos fitopatógenos, objetivando prolongar a vida útil dos fungicidas:

  • Utilizar, sempre que possível, a rotação de fungicidas com diferentes modos de ação.
  • Utilização dos fungicidas apenas nas épocas e doses recomendados no rótulo e/ou bula. Além de respeitar os intervalos entre aplicações subsequentes.
  • Utilizar métodos alternativos para controle de doenças:
    • Variedades com resistência genética
    • Controle biológico de doenças
    • Controle cultural de doenças, etc.
  • Elaborar um programa de Manejo Integrado de Doenças (MID), que busque aliar as aplicações de fungicidas com outras tecnologias, para o controle de doenças.

Manejo Integrado de Doenças (MID)

De modo geral, recomenda-se, a adoção de medidas de manejo integrado de doenças, preferencialmente englobando o maior número de princípios e medidas disponíveis para o controle.

Um programa de MID bem elaborado, envolve diversos aspectos agronômicos, que auxiliam no manejo das doenças e reduzem aplicações de fungicidas.

A utilização de sementes sadias e certificadas garante um bom estande inicial de plantas e evita que as sementes tragam consigo inóculo de fungos.

A escolha de híbridos e cultivares resistentes e adaptadas à região reduz a incidência de determinadas doenças na lavoura.

A rotação de culturas quebra o ciclo de desenvolvimento de muitos patógenos de solo e com isso, reduz a quantidade de inóculo nas safras subsequentes.

Uma adubação equilibrada também é primordial para a redução das doenças, pois plantas com excesso de nitrogênio apresentam tendência de serem mais suscetíveis a doenças.

Estas são algumas das medidas empregadas no MID, as quais visam a redução da predisposição das plantas às doenças, diminuindo assim a quantidade de fungicidas aplicados na lavoura e, consequentemente, a pressão de seleção de fungos resistentes aos fungicidas disponíveis no mercado atualmente.

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