A importância da matéria orgânica para a produção vegetal e qualidade do solo é bastante documentada na literatura e pode ser facilmente visualizada por você.

Pense em uma floresta ou bosque.

Nela, não são realizadas adubações com fertilizantes minerais, correto?

Também não são empregadas às técnicas modernas da agricultura de precisão.

Apesar disso, as plantas crescem exuberantes e produtivas.

E porque isso acontece?

Exatamente o que você pensou.

Grande parte disso é resultado da presença da matéria orgânica nos solos.

A matéria orgânica contém os nutrientes necessários ao crescimento e produção vegetal e no solo passa por algumas transformações, deixando esses nutrientes disponíveis.

Após a absorção pelas plantas, os nutrientes são novamente devolvidos ao solo na forma de matéria orgânica, com a senescência (morte) dos tecidos vegetais (folhas e frutos).

É esse ciclo o responsável por grande parte da fertilidade nas florestas, principalmente as desenvolvidas em solos muito intemperizados.

Agora imagine: se a matéria orgânica é capaz de sustentar uma floresta como a Amazônica, que está em sua maior parte sobre solos intemperizados, ácidos e pobres, o que ela será capaz de fazer no sistema produtivo da sua propriedade rural?

Portanto, conhecer os conceitos sobre a matéria orgânica e os benefícios de sua aplicação no solo, é essencial para se obter altas produtividades (e boa lucratividade) em sistemas de produção agrícola.

Além disso, é importante saber quais os principais tipos de materiais orgânicos utilizados na produção agrícola, e quais suas relações com a disponibilidade dos nutrientes do solo.

No manejo da matéria orgânica, existem também outras questões mais específicas, tão ou mais importantes que as elencadas até aqui.

Esse é o caso dos fatores que interferem no acúmulo de matéria orgânica no solo e sobre os custos de produção.

Portanto, este artigo busca abordar estes aspectos, no intuito de que você seja capaz não só de entender a importância da utilização da matéria orgânica em sua propriedade.

Mas também, saber como elevar as quantidades de matéria orgânica de seu solo.

O que é a matéria orgânica

Matéria orgânica pode ser definida como todo material (contendo carbono) vivo ou morto presente na superfície, ou incorporado ao solo, nos mais diferentes estágios de decomposição.

A matéria orgânica morta, referida acima, corresponde aos restos mortais (resíduos) de quaisquer vegetais, animais e organismos do solo.

Resíduos estes nos mais variados estágios de decomposição, como folhas completamente identificáveis, resíduos já não identificáveis e o húmus.

A matéria orgânica viva compreende os microorganismos vivos, também conhecidos como biomassa microbiana do solo, que são primordiais para a decomposição da matéria orgânica.

Vale destacar que a biomassa microbiana participa ativamente das reações do solo, como a mineralização.

A mineralização compreende a transformação dos nutrientes que estão na matéria orgânica (na forma de proteínas, lipídios, etc.) para formas minerais assimiláveis pelas plantas.

Em resumo, a matéria orgânica pode ser qualquer resíduo vegetal ou animal que contém carbono e outros nutrientes, que são mineralizados por ação microbiana.

Para esclarecer como os microorganismos atuam na matéria orgânica, lembrem-se das aulas de biologia e química do ensino médio.

Tenho certeza que já escutaram falar que nós, os animais e os vegetais, são formados por bilhões de células e que estas células têm proteínas, ácidos nucleicos, etc.

Pois bem, esses compostos contêm nutrientes de plantas, como nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), enxofre (S), ferro (Fe), cobre (Cu), etc.

E durante sua decomposição, ocorre a transformação dos nutrientes que estão na forma orgânica, para a forma mineral, que é a forma predominantemente absorvida pelas plantas.

Vamos usar um exemplo para ficar mais claro. Em uma proteína (composto orgânico) o N está na forma de amina (NH2).

Durante as reações de decomposição (intermediadas por microorganismos) o NH2 se transforma em NH3 (amônia), depois em NH4 (amônio), NO2- (nitrito) e por fim, em NO3- (nitrato).

No caso do N, tanto as formas NH4 quanto NO3 podem ser assimiladas pelas plantas.

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Os benefícios do aumento da matéria orgânica do solo

Com base no que foi abordado no tópico acima, imagino que você já saiba um dos principais benefícios da aplicação da matéria orgânica no solo.

Exatamente o que pensou! A matéria orgânica é fonte de nutrientes para as plantas.

A MO. fornece tanto macros quanto micronutrientes de plantas, pois, eles fazem parte da estrutura dos tecidos vegetais e animais que compõem a matéria orgânica.

Vale destacar que a MO. fornece principalmente o que chamamos de Chomps, ou seja: Carbono (C), Hidrogênio (H), Oxigênio (O), Nitrogênio (N), Fósforo(P) e Enxofre (S).

Outro benefício da matéria orgânica é o aumento da capacidade de troca de cátions do solo (CTC), que é principalmente importante no caso de solos arenosos e muito intemperados.

Grosso modo, isso significa que a matéria orgânica “segura” os nutrientes no solo e reduz suas perdas por lixiviação, devido irrigações ou precipitações excessivas.

A matéria orgânica também pode reduzir a toxidade de íons metálicos ou nutrientes metálicos, como chumbo, mercúrio, cobre etc.

Sejam estes com teores naturalmente elevados nos solos, ou aumentados com adubações excessivas.

Isso ocorre porque a MO. pode “sequestrar” íons metálicos, ou seja, complexa-los, impossibilitando ou diminuindo sua disponibilidade para as plantas.

A matéria orgânica aumenta a disponibilidade do fósforo (reduz a fixação do fósforo), principalmente em solos ricos em óxidos de ferro, como no caso de Latossolos.

Além de melhorar a fertilidade do solo outro grande benefício da matéria orgânica é o aumento da qualidade física do solo.

Isso ocorre por vários meios. Um deles é o aumento na floculação (aproximação) das partículas do solo, devido às cargas presentes na matéria orgânica.

Outro meio é o aumento na cimentação das partículas do solo, que é em parte, resultante da liberação de substâncias orgânicas com potencial colante por fungos e bactérias.

Micélios de fungos e raízes de plantas também promovem a aproximação das partículas do solo, favorecendo sua agregação.

E espaços deixados por raízes decompostas, facilitam a transferência de água no perfil do solo e as trocas gasosas.

Todas essas ações, quando juntas, contribuem grandemente para a agregação do solo, e desenvolvimento de estrutura granular ou grumosa.

Tais estruturas aumentam a capacidade de retenção de água do solo e facilitam o desenvolvimento do sistema radicular.

Portanto, se você lembrar que a melhoria da qualidade química (fertilidade) e física do seu solo é condição fundamental para um solo produtivo.

Entenderá que em longo prazo, o aumento dos níveis de matéria orgânica vai reduzir a necessidade de adubação das suas plantas, ou seja, reduzirá seu custo de produção.

Plantas nutridas organicamente são mais resistentes a pragas e doenças, sobretudo, as relacionadas ao sistema radicular. Isso também reduzirá os custos de produção.

A melhoria na qualidade física do seu solo em função da aplicação de matéria orgânica reduzirá sua irrigação e o estresse hídrico das plantas, melhorando sua produtividade.

Resumidamente, maiores níveis de matéria orgânica no seu solo, significam redução de custos com adubos, produtos fitossanitários e água, além de aumentos na produtividade.

O que você está esperando para garantir níveis adequados de matéria orgânica no solo de sua propriedade?

Quais os principais tipos de materiais orgânicos usados na produção agrícola.

São diversos os materiais utilizados para incrementar a matéria orgânica do solo. Os mas comuns são os estercos.

Dentre eles estão: o esterco bovino, a cama de frango e estercos ovinos, além do composto orgânico sólido, líquido e húmus de minhocas.

Vale destacar que diversos outros materiais são utilizados, principalmente em condições mais específicas referentes à disponibilidade.

Por exemplo, no caso de locais onde há o beneficiamento da cana-de-açúcar, é comum a utilização da vinhaça.

Nas áreas próximas a indústrias de beneficiamento vegetal, como as de arroz e mamona é comum a utilização da casca de arroz carbonizada e da torta de mamona.

Atualmente, com o entendimento sobre as vantagens de se elevar os níveis de matéria orgânica do solo e com a busca pela sustentabilidade da produção.

Têm surgido outros materiais orgânicos como farinhas de sangue e de ossos, subprodutos da indústria de beneficiamento animal, que são boas fontes de N, Ca e P.

Além dos resíduos orgânicos citados, não podemos esquecer-nos das fontes vegetais, os “adubos verdes“.

Imagino que ao menos uma vez na vida você escutou falar deles. verdade?

Pois bem, como o nome sugere, a adubação verde dar-se pela utilização de plantas, para incrementar os níveis de nutrientes e matéria orgânica do solo.

Você deve estar se perguntando:

Terei que disponibilizar uma área da minha propriedade, cultivar plantas e depois retirá-las para usar como adubo orgânico?

Para alguns, isso parece ilógico e talvez oneroso demais.

Mas, lhe digo que não é.

E melhor, provarei para você.

Antes disso, abrirei um parêntese para falar um pouco mais sobre as particularidades dos adubos verdes.

Primeiro, é válido destacar que as principais espécies de plantas utilizadas como adubos verdes são as leguminosas.

O porquê dessa afirmação? Leguminosas realizam a fixação biológica de nitrogênio, portanto, são excelentes adubos nitrogenados.

Essas leguminosas podem ser inclusive cultivadas em rotação de culturas e/ou em sucessão a sua espécie principal.

E você também pode utilizá-la comercialmente, aproveitando somente seus resíduos (parte aérea e sistema radicular).

É comum a mistura de leguminosas com outras espécies (coquetel de adubos verdes), que são cultivados nas entressafras e incorporados ao solo anteriormente ao plantio.

Pois bem, retomemos agora o raciocínio sobre a comprovação do quão vantajoso é a adubação verde. Acompanhe comigo.

Um estudo publicado em 2016 mostrou que a leguminosa kudzu tropical (Pueraria phaseoloides) tem cerca de 30,0 g kg-1 de nitrogênio em sua composição.

Considerando que sua produção mínima de massa seca por hectare é de cerca de 4000 kg (em 3 cortes), a adição de N seria de 120 kg por hectare.

Isso corresponde aproximadamente a 267 kg de ureia, ou 10 sacas de 25 kg, que custam aproximadamente 550,00 reais, atualmente.

Se o produtor cultivar o kudzu trocical, consorciado ou como plantas de cobertura vivas, seu custo com implantação e manutenção estará entre 20-60% menor.

Como aumentar a matéria orgânica no solo da sua propriedade rural

Imagino que você concluiu intuitivamente que aumentará os níveis de matéria orgânica de seu solo, adicionando alguns desses materiais que citei.

Isso é verdade, no entanto, é preciso definir o melhor manejo para aumentar a matéria orgânica no solo da sua propriedade, obtendo o melhor custo/benefício.

A primeira importante informação, é que assim com os fertilizantes minerais os materiais orgânicos também têm garantias (% do nutriente por kg de fertilizante).

Porém, nenhum material orgânico é igual. Estercos, por exemplo, podem apresentar variações significativas na composição a depender da alimentação dos animais.

Outra questão importante é a relação C/N.

Calma! Não há o que temer.

A relação C/N representa o teor de carbono em relação ao teor de nitrogênio do material em questão.

Seu conhecimento é importante, pois, como falamos acima, os microrganismos compõem a matéria orgânica e trabalham ativamente nela.

Eles usam o carbono e o N presentes nos compostos orgânicos para manterem-se ativos e intermediar reações de mineralização, dentre outras.

Em resumo, o que você precisa saber é que materiais com relação C/N menores (30/1; 20/1) disponibilizam rapidamente os nutrientes para o solo.

Enquanto, materiais com relação C/N superiores a 40/1 disponibilizam mais lentamente os nutrientes, em contrapartida, resultam em maior acúmulo de matéria orgânica no solo.

Em alguns casos específicos, materiais com relação C/N muito alta como 110/1 podem causar imobilização do N do solo, quando incorporados ao solo.

Com base nisso, uma dica de manejo é incorporar apenas materiais de baixa relação C/N, e aplicar os de relação C/N elevadas, em cobertura.

Nesse contexto, para incrementar os níveis de matéria orgânica do seu solo você pode inicialmente, adicionar estercos e farinha de ossos, na adubação de fundação.

Realizar o consórcio ou a rotação de culturas com leguminosas durante o cultivo e fazer o plantio de adubos verdes (coquetéis) ou rotação de culturas nos intervalos de cultivo.

Associado a isso, pode utilizar cobertura morta com materiais orgânicos de relação C/N maior, como bagana de carnaúba, etc.

A utilização de composto orgânico líquido durante o ciclo cultural é também bastante recomendada e adequada a culturas fertirrigadas.

Você agora deve estar se questionando como seria capaz de utilizar todos esses materiais e técnicas.

É coerente que cada cultivo e propriedade adotem sua estratégia, pois, existem particularidades entre cultivos perenes, anuais e monocultivos, dentre outras variáveis.

Em culturas perenes, pode-se utilizar cobertura viva (entrelinhas) ou fazer consórcios com leguminosas.

Associado a isso realizar adubação orgânica na cova, incorporando materiais orgânicos sólidos de menor relação C/N. E em cobertura adicionar os de elevada relação C/N.

Em monocultivos, a adição de material orgânico sólido na fundação e a adição de composto líquido durante o cultivo são opções interessantes.

Nesses casos, o cultivo de coquetéis com leguminosas na entressafra, para posterior incorporação, pode acelerar a elevação dos níveis de matéria orgânica nesses solos.

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