Seria ótimo se pudéssemos aliar a conservação dos recursos naturais com o aumento da produtividade e do lucro da atividade agrícola, não seria?

O Sistema de Plantio Direto tem auxiliado os produtores brasileiros na resolução deste problema há décadas.

O Sistema de Plantio Direto nos ajuda a obter uma visão integrada da condução dos cultivos, pois engloba uma série de práticas e técnicas que vão desde o preparo do solo até a colheita.

Os solos agrícolas brasileiros, que ocorrem nos diferentes biomas, apresentam suscetibilidade à degradação em diferentes níveis, processo com potencial para restringir sua capacidade de uso ou torná-los improdutivos.

Por exemplo, o Planalto gaúcho é uma região produtora, principalmente, de grãos, com destaque para soja e trigo, apresentando áreas declivosas e propensas à ocorrência de erosão hídrica.

Sendo assim, algumas práticas agrícolas, como o preparo do solo através de seu revolvimento integral na camada superficial, são capazes de intensificar as perdas de solo.

Por outro lado, o Sistema de Plantio Direto, quando adotado plenamente, é capaz de mitigar esse processo de degradação.

Isso ocorre em função de uma série de efeitos que o Sistema de Plantio Direto causa na sua lavoura.

Em um primeiro momento, somente o fato de solo não estar desnudo, exposto ao impacto da gota da chuva, já contribui para que as perdas de solo diminuam no Sistema de Plantio Direto.

Ademais, o Sistema de Plantio Direto gera economia ao diminuir gastos com combustível, maquinário e mão-de-obra ao dispensar o preparo do solo.

Os efeitos do Sistema de Plantio Direto sobre a fertilidade, física, ocorrência de pragas e doenças e no lucro da lavoura serão discutidos mais detalhadamente ao longo deste texto, então se você tem interesse nesses tópicos, continue a leitura.

Definição e evolução do Sistema de Plantio Direto

Você já deve ter lido ou escutado os termos “Plantio Direto“, “Semeadura Direta” e “Sistema de Plantio Direto“.

Porém, já se perguntou se eles têm o mesmo significado?

O Sistema de Plantio Direto refere-se a um conjunto de práticas de manejo, preconizando o revolvimento do solo apenas na linha de semeadura, rotação de culturas, manutenção permanente da cobertura do solo e redução do período entre colheita e semeadura.

Por isso, o Sistema de Plantio Direto difere dos termos Plantio Direto e Semeadura Direta, os quais são sinônimos e indicam apenas uma técnica de manejo em que a semeadura ou plantio é realizado com mobilização do solo apenas na linha de semeadura.

Ou seja, quando se elimina as operações de aração e gradagem, têm-se a semeadura direta, em que o controle de plantas daninhas é realizado por meio de herbicidas.

Para se ter o Sistema Plantio Direto de fato, além do revolvimento mínimo do solo, restrito ao sulco de semeadura, é preciso também realizar a cobertura permanente do solo, com plantas de cobertura ou com palhada, e rotação de culturas.

Os primeiros relatos sobre Plantio Direto no Brasil ocorreram no ano de 1969.

Nesse ano, essa prática de manejo chegou ao Brasil como alternativa ao preparo convencional do solo, modo de preparo do solo que estabelece o revolvimento da camada de 0 a 20 cm e que era amplamente utilizado na época.

Na década de 80, o Sistema de Plantio Direto passou a ser priorizado, evidenciando que o uso de uma ou outra técnica de manejo não era suficiente para a sustentabilidade econômica e ambiental da atividade agrícola.

Sendo assim, era e é necessário um conjunto de práticas e técnicas de manejo que, de forma integrada, possibilitem a adoção plena do Sistema de Plantio Direto, tornando a lavoura mais rentável e possibilitando a conservação do solo.

Por isso, o Sistema de Plantio Direto é executado em 32,8 milhões de hectares no Brasil, representando o principal sistema de manejo empregado no país.

Entretanto, esse dado traz à tona uma outra discussão.

Considerando a importância econômica de culturas de grãos como a soja, você acredita que é possível a adoção de práticas de manejo como a rotação de culturas?

relatos de que, no Rio Grande do Sul, apesar de apresentar 5,78 milhões de hectares sob Sistema de Plantio Direto segundo levantamentos, há indícios de que esse sistema não ultrapasse 1,27 milhões de hectares em função de não ocorrer diversificação de culturas nas áreas.

Sistema de Plantio Direto e a fertilidade do solo

A dinâmica dos nutrientes e demais atributos químicos é afetada diretamente pela ausência do revolvimento do solo proporcionada pelo Sistema de Plantio Direto.

O primeiro impacto que a adoção do Sistema de Plantio Direto que você pode perceber é na prática da calagem.

Quando o preparo convencional do solo é utilizado, o calcário é incorporado na camada de 0 a 20 cm do solo, e, por isso, a amostragem e dose são planejadas para esse volume de solo.

Entretanto, em Sistema de Plantio Direto, precisamos executar algumas adaptações.

Como não há mais revolvimento do solo após a adoção do Sistema de Plantio Direto, a amostragem e a calagem do solo devem seguir metodologias que são detalhadas no manual de adubação e calagem que foi desenvolvido para sua região.

Em relação a amostragem, essas adaptações ocorrem em função da criação de um gradiente de fertilidade que é acentuado em função do não revolvimento do solo e da deposição de fertilizantes próxima a semente e somente na linha de semeadura.

É importante não ignorar esse fato, pois se a coleta do solo for feita de maneira errada e coletarmos apenas na linha de semeadura, vamos subestimar a necessidade de adubação e, provavelmente, diminuir a produtividade, frustrando outros investimentos realizados na lavoura.

Já a calagem, no Sistema de Plantio Direto consolidado, considera apenas a camada de 0 a 10 cm em virtude da ausência de incorporação do calcário, portanto, a dose do corretivo de acidez indicada pelo manual será metade da que seria recomendada em preparo convencional.

Além disso, o Sistema de Plantio Direto aumenta os teores de matéria orgânica no solo, incrementando a capacidade de troca de cátions e diminuindo a perda de nutrientes como potássio e nitrogênio.

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Sistema de Plantio Direto e a física do solo

A não mobilização do solo e o aumento dos teores de matéria orgânica nos solos sob Sistema de Plantio Direto acarretam uma série de mudanças nos atributos físicos.

O preparo convencional desestrutura o solo, diminuindo a macroporosidade e a agregação, atributos importantes para a aeração, infiltração e disponibilidade de água.

O revolvimento do solo expõe a matéria orgânica, aumentando a oxidação e diminuindo seus teores.

Por outro lado, o Sistema de Plantio Direto, ao implicar na diversificação de plantas por meio da rotação de culturas com sistemas radiculares extensos e produção de matéria seca em quantidade e qualidade condizentes com a demanda da região, aumenta os teores de matéria orgânica e estimula a atividade da fauna edáfica.

Esse aumento dos teores de matéria orgânica promove a formação de agregados estáveis e macroporosidade, favorecendo a disponibilidade, retenção e condutividade de água.

Os poros formados em função da atividade da fauna edáfica são chamados de bioporos e têm importante contribuição para a infiltração de água, pois são poros contínuos no perfil do solo, ao contrário dos formados pela ação mecânica de implementos agrícolas.

Sabemos que o preparo convencional resulta na formação de camada compactada em subsuperfície, o chamado pé-de-arado, ocasionando uma série de impactos negativos às plantas.

Em contrapartida, o Sistema de Plantio Direto, através da ação das raízes das diferentes plantas com o decorrer do tempo, aumenta a porosidade e, respeitando a umidade, peso de maquinário e intensidade de tráfego, não gera compactação.

Os estudos que responsabilizam o Sistema de Plantio Direto por compactação superficial foram conduzidos em áreas com pouco tempo de implantação ou não atendiam todos os requisitos para caracterizá-lo como um sistema.

Em casos de Sistema de Plantio Direto consolidado e manejado com os cuidados já mencionados nesse texto, não geram compactação.

Pesquisas atuais comprovam que esse sistema de manejo beneficia a estrutura do solo, porém, esses efeitos positivos demoram diferentes intervalos de tempo para serem manifestados, dependendo de características relacionadas ao tipo de solo e clima.

Sistema de Plantio Direto e ocorrência de pragas e doenças

A manutenção da cobertura do solo através de resíduos vegetais do cultivo antecedente influencia o manejo fitossanitário que iremos empregar na lavoura.

Esse fator pode viabilizar a sobrevivência e disseminação de pragas e doenças para as safras seguintes, uma vez que esses resíduos podem servir como fonte de inóculo.

Você pode perceber isso ao considerar o fungo Giberella zeae, agente causador da Giberela em gramíneas. Esse micro-organismo causa prejuízo em culturas como o trigo e é capaz de sobreviver na lavoura em restos vegetais da cultura.

Além disso, outras culturas, como o milho, também são hospedeiras do fungo.

Os restos culturais também podem potencializar perdas em áreas com ocorrência de nematoides os quais podem ser pragas agrícolas, habitam o solo e afetam o desenvolvimento radicular das plantas.

Culturas comumente utilizadas para cobertura do solo, como milheto e aveia-preta, são hospedeiras do gênero Meloydogine spp, um dos principais grupos de nematoides considerados pragas agrícolas.

O fato de viverem no solo dificulta o controle e as principais alternativas são o uso de culturas não hospedeiras e de cultivares com tolerância ou resistência à praga.

Sendo assim, a rotação de culturas, mais uma vez, destaca-se como uma prática de cultivo preconizada pelo Sistema de Plantio Direto, essencial para a sustentabilidade da lavoura.

Talvez o nosso principal desafio seja encontrar alternativas capazes de viabilizar, de fato, a diversificação de culturas nas propriedades rurais em detrimento dos monocultivos, os quais demonstram não ser sustentáveis, tanto ambientalmente quando economicamente.

Por que o Sistema de Plantio Direto aumenta o lucro da propriedade rural?

O Sistema de Plantio Direto nos possibilita uma série de oportunidades para o aumento da margem de lucro do empreendimento agrícola.

O fato de excluir o preparo convencional reduz os gastos com combustível, implementos, maquinário e mão-de-obra.

Estudos comprovam que o Sistema de Plantio Direto aumenta o rendimento de grãos da cultura de trigo quando comparado a práticas de cultivo como preparo convencional e monocultivo.

Além dos impactos diretos nos custos de produção e lucro da lavoura, há efeitos indiretos.

Juntamente com o solo que é perdido por erosão em áreas com solo desestruturado e desnudo, são perdidos nutrientes que representam investimentos na forma de fertilizantes.

Estima-se que a adoção do Sistema de Plantio Direto no Brasil resulte na redução das perdas de solo em 14 ton.ha-1.ano-1 e diminuição das perdas de fósforo e potássio por erosão em 10 e 13 kg.ha-1.ano-1, respectivamente.

É difícil pensarmos sobre quanto custa uma tonelada de solo perdido na nossa lavoura, mas se considerarmos que 1 cm de solo pode levar até mais de 300 anos para ser formado, identificamos que se trata de um recurso natural valioso e não renovável em um curto espaço de tempo.

As melhorias na fertilidade e em atributos físicos do solo decorrentes do Sistema de Plantio Direto contribuem para o armazenamento da água que chega até a lavoura via precipitação ou irrigação.

Por outro lado, o Sistema de Plantio Direto é dependente do uso de controle químico de plantas daninhas, o qual representa um gasto maior se comparado a sistemas que utilizam preparo convencional do solo.

Diante do que foi apresentado nesse artigo, observamos que a adoção do Sistema de Plantio Direto pode elevar a agricultura a um patamar mais elevado, onde conseguimos conciliar preservação dos recursos naturais e aumento do lucro.

Entretanto, não podemos negligenciar nenhuma das práticas que são recomendadas pelo Sistema de Plantio Direto, pois elas se complementam e aumentam drasticamente as chances de sucesso da lavoura.

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