Você sabia que existe uma raça de gado leiteiro responsável por boa parte do leite que nós consumimos?

Atualmente, o Brasil configura-se como 6º maior produtor mundial de leite fluido. A produção é estimada em, aproximadamente, 33 bilhões de litros, segundo dados do IBGE.

Além disso, possuímos o 3º maior rebanho de vacas leiteiras do mundo. Estimado em, aproximadamente, de 15 milhões de cabeças, das quais, boa parte pertencente a raça girolando.

A raça de bovinos girolando é um caso curioso na agropecuária brasileira, pois foi originada no Brasil, por meio do cruzamento de duas raças de origem europeias.

Desta forma, a raça girolando é originária do cruzamento entre as espécies Gir (Bos indicus) e Holandesa (Bos taurus).

Desde então, o girolando tem se caracterizado como uma das raças de gado leiteiro de maior destaque do mundo, especialmente, em países de clima quente.

O girolando começou a ganhar maior destaque a partir de 2017, quando um animal da raça ultrapassou o recorde mundial de produção leiteira.

O recorde anterior era de 115 kg de leite produzido em um único dia, em 2017 foi para 120,48 kg e, em 2019 saltou para 127,57 kg.

Devido a melhoria das características genética dos animais girolando, este cenário tem sido cada vez mais comum.

Sendo assim, a pecuária leiteira vem aprimorando o seu desempenho produtivo, anualmente.

Outro fator que faz as vacas girolando exímias produtoras de leite, é a sua excelente adaptabilidade ao clima brasileiro.

O êxito da raça na produção leiteira é tanto, que estima-se que cerca de 80% do leite presente nas prateleiras dos supermercados brasileiros seja oriundo de vacas girolando.

Entender melhor a raça girolando é um dos primeiros passos para quem está disposto a entrar na pecuária leiteira, já que grande parte deste setor gira em todo da raça.

Sendo assim, o girolando é a escolha mais acertada na maioria das vezes.

Histórico da raça Girolando

A história do girolando data da década de 40 quando cruzamentos, próximos do que vem a ser hoje a raça, aconteciam sem controle algum.

Verdadeiramente, o girolando surgiu por acidente, na ocasião em que um touro gir adentrou em uma área com vacas holandesas e cruzou com algumas delas.

O que aconteceu anos depois, mais especificamente nos anos 70, no entanto, foi completamente intencional.

Entre os anos de 1979 e 1988 aconteceu o Programa de Cruzamento Dirigido (Procruza), que tinha como foco tornar a atividade pecuária leiteira mais produtiva e rentável.

Durante aqueles anos, a produtividade leiteira era extremamente baixa no Brasil. Segundo pesquisas realizadas pelo MAPA na época, os motivos para isso eram:

  • Estratégias de manejo inadequadas e ultrapassadas.
  • Pastagens de baixo potencial nutricional.
  • Baixo potencial genético dos animais.

O Procruza buscou o desenvolvimento de raças leiteiras mais condicionadas às condições tropicais. Desta forma, surgiu oficialmente a raça Gado Leiteiro Tropical, ou simplesmente, girolando.

A genética da raça foi originalmente composta por 5/8 de holandesa e com 3/8 de gir.

Entretanto, somente a partir de 1996 a raça foi oficializada no país. Para fomentar a raça, também foi fundada a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, no mesmo ano.

Desde então, a Associação tem trabalhado ativamente para melhorar o potencial genético do plantel de girolando existente no Brasil. Além de ser, a entidade de maior respaldo para a raça.

Principais características do girolando

Para que um animal será considerado oficialmente girolando, é necessário que alguns critérios sejam obedecidos.

Um animal Girolando Puro Sintético é um bimestiço com somatório igual a 5/8.

Em outras palavras, a sua composição genética poderá variar da seguinte forma:

  • 3,5 a 4,5/8 características genéticas da raça Holandesa
  • 2,5 a 3,5/8 características genéticas da raça Gir

Apesar disso, é possível encontrar animais girolando meio-sangue, ou seja, 50% holandesa e 50% gir. Contudo, a proporção da escolha das raças é determinada em conformidade com o clima e a finalidade do pecuarista.

O girolando tem ainda algumas características zootécnicas marcantes que distinguem esses animais dos demais, como por exemplo:

  • Boa capacidade de auto-regulação da temperatura corporal, permitindo a produção de leite em alto nível, mesmo nas condições tropicais brasileiras.
  • Resistência ao carrapato.
  • Docilidade, o que simplifica significativamente o trato com os animais da raça girolando.
  • As fêmeas possuem o úbere bem irrigado e aparelho mamário bem desenvolvido.
  • Estrutura corporal compatível com o seu perfil reprodutivo. Desta maneira, apresenta estatura média e conformidade corporal bem estruturada, com musculatura e ossos fortes.
  • Excelente perfil reprodutivo e fecundidade. Sob condições ideais, as vacas girolando conseguem parir até 1 bezerro ano-1.
  • Longevidade produtiva, ou seja, a primeira cria pode ser induzida aos 30 meses, ao passo que, o seu pico de produtividade ocorre até os 10 anos. Contudo, tem potencial para produzi leite de modo satisfatório até, aproximadamente, os 15 anos.

Além disso, a raça girolando combina as características de rusticidade, dos animais da raça gir e, a elevada produtividade da holandesa. sendo uma raça que apresenta alta produtividade leiteira mesmo sob condições de altas temperaturas.

 

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Melhoramento genético da raça Girolando

No cenário da pecuária leiteira brasileira, raças taurinas puras, como a holandesa, têm produção prejudicada em função do clima tropical, pois tendem a sofrer com as altas temperaturas encontradas na maior parte do território brasileiro.

Lembre-se que são raças europeias, que evoluíram para se adaptar a temperaturas frias, muitas vezes com mecanismos de sobrevivência a períodos de neve.

E de acordo com a literatura científica atual, muitos estudos tem associado um antagonismo na produção leiteira a tolerância ao calor.

Nos últimos anos, diversas pesquisas têm sido conduzidas a fim de entender melhor as características genéticas por trás da raça girolando, as quais buscam aumentar ainda mais a sua produtividade e competitividade na pecuária leiteira.

Ferramentas de mapeamento genético e seleção genômica tem sido considerados como os principais aliados dos programas de melhoramento genéticos de animais da raça Girolando, com destaque para:

O PMGG baseia-se na identificação de animais girolando com características superiores. Além disso, selecionam os animais realmente capazes de transmitir tais características aos seus descendentes.

Grande parte do trabalho da PMGG envolve Testes de Progênies. Isto é, avalia as vacas filhas dos touros que são responsáveis por mais da 50% das características genéticas herdáveis do rebanho.

Conforme o Sumário 2019 para a Avaliação Genômica das Vacas:

  • Girolando na composição 1/2 Hol:1/2 Gir possuem as maiores médias para produção de leite total na lactação (5.823 kg) e produção em até 305 dias (5.288 kg).
  • As vacas 3/4 Hol:1/4 Gir apresentaram as maiores médias para a lactação de 273 dias.
  • A composição racial 1/4 Hol: 3/4 Gir por sua vez, tem os menores valores para a lactação de 234 dias, com produção de leite em até 305 dias de 3.656 kg e produção total (3.926 kg).

 

Manejo alimentar e reprodutivo das vacas girolando

O programa alimentar das vacas girolando deve ser planejado de forma a fornecer nutrientes em quantidades compatíveis com a sua capacidade produtiva. Bem como, qualquer outra raça de animais destinados a produção leiteira.

Segundo pesquisas conduzidas pela Embrapa, uma dieta completa para vacas em lactação deve incluir: um mix de alimentos volumosos (silagem, feno, pasto, capim verde picado), associados a concentrados (energéticos e proteicos), bem como minerais e vitaminas.

Além disso, a produção e a qualidade do leite estão intimamente relacionadas ao consumo de alimentos. Sendo assim, deve-se considerar uma relação entre concentrado:volumoso, adequada a produção diária de leite.

Outro fator importante é considerar que a dieta varia conforme as diferentes fases de lactação. As quais podem ser dividias em 5 etapas distintas:

  • Início de lactação: compreende o período de 0 a 70 dias. É tido como o seu máximo de produção, por isso é importantíssimo a oferta de alimentos ricos em proteínas, especialmente, espécies vegetais leguminosas. Recomenda-se um incremento de 0,5 kg dia-1 de comida para as vacas girolando nesta fase.
  • Máximo de consumo: ocorre de 80 a 140 dias, neste período os animais param de perder peso, entretanto, ocorre um declínio na produção leiteira. Recomenda-se que a alimentação não possua mais que 40% de carboidratos não fibrosos. Contudo, a qualidade da forragem ofertada deve ser mantida para preservar função ruminal e gordura do leite. Podem ser utilizados nesta fase feno ou silagem de cana-de-açúcar, alfafa, tifton, sorgo, milho etc.
  • Metade final da lactação e gestação: ocorre por volta dos 140 a 305 dias. As fêmeas reduzem de 8 a 10% da produção de leite mês-1. Por isso, de modo geral, a necessidade de alimentos energéticos é reduzida. Entretanto, se forem fêmeas de primeira cria, recomenda-se um incremento de 20% no fornecimento de nutrientes.
  • Período seco: esta fase antecede a parição, de 40 a 14 dias. A oferta de alimentos para as vacas girolando neste período deve obedecer a alguns critérios. De modo que, a dieta seja formulada para atender as taxas de mantença, desenvolvimento fetal e manutenção das reservas corporais. Desta forma, são necessários, no mínimo, 12% de proteína bruta na composição da ração e, a matéria seca deve ser de, aproximadamente, 2% do peso vivo. Ao passo que, a oferta de forragem deverá ser de, pelo menos 1% do peso vivo ou 50% da matéria seca presente na dieta.
  • Pré-parto: são os 14 dias que antecedem o parto. O principal objetivo das dietas formuladas nesta fase é preparar a vaca seca ao parto. Desta maneira, ela inicia a receber a ração de lactação, visando prevenir alguns problemas metabólicos. Pode-se optar pela oferta de grãos e volumosos com alta quantidade de proteínas.

 

Desafios e perspectivas para os animais da raça girolando

Até agora nós comentamos sobre os fatores positivos associados a raça girolando. Apesar disso, se os tratos com os animais não forem adequados, a raça pode expressar um conjunto de características indesejáveis, como por exemplo:

  • Curto período de lactação
  • Dificuldade para descer o leite, quando não há “bezerro ao pé”
  • Problemas na ordenha, ocasionado por tetos duros

Outro fator que preocupa alguns produtores é a falta de padronização entre os animais. Isso significa que, em uma mesma propriedade poderão existir animais com diversas proporções genéticas, em função da raça girolando permitir diversos níveis sanguíneos entre os cruzamentos das raças holandesa e gir.

Quando isso ocorre, o manejo pode se tornar trabalhoso, já que, os animais apresentarão comportamento levemente heterogêneos. O que pode ser solucionado, adotando-se um bom programa de manejo reprodutivo.

O que nos leva a outro problema, o alto custo para a manutenção de animais reprodutores. Isto é, se a geração dos animais é realizada na própria unidade produtiva, é necessário a manutenção de animais puros das raças Gir e Holandesa para os retrocruzamentos, elevando os custos de produção por unidade de leite.

Para que desta forma, mantenha-se a heterose, que somente é obtida cruzando animais:

  • Gir x Holandesa = origina animais girolando meio sangue.
  • Gir x Girolando e Holandesa x Girolando = resulta em animais girolando com diversos níveis varietal.
  • Girolando x Girolando = não é recomendado o cruzamento entre animais girolando continuamente. Pois, algumas características importantes podem ser perdidas nestes cruzamentos.

Sendo assim, uma solução de baixo custo para a manutenção da raça girolando é a aquisição de sêmen e, consequentemente, a inseminação artificial. Esta alternativa, reduz os gastos com a manutenção de animais reprodutores, bem como os custos de produção e evita o viés da endogamia.

 

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