A cana-de-açúcar é uma planta amplamente disseminada pelo mundo, entretanto, poucas pessoas conhecem a morfologia e as peculiaridades dos aspectos produtivos desta cultura.

A cana-de-açúcar é uma planta proveniente do continente asiático e chegou ao Brasil junto com os colonizadores portugueses, aproximadamente, no ano de 1520. A cultura ganhou força a partir da instalação dos engenhos e, em pouco tempo conseguiu substituir a indústria extrativa do pau-brasil presente na época.

As espécies de cana-de-açúcar fazem parte de um grupo de plantas do gênero Saccharum spp. O seu cultivo no Brasil tem várias finalidades, como:

  • Açúcar
  • Álcool (etanol)
  • Cachaça
  • Forrageira

Em termos territoriais no Brasil, a cana-de-açúcar ocupa o terceiro lugar dentre as culturas temporárias, ficando atrás apenas da soja e do milho. Apesar disso, ainda somos os maiores produtores mundiais de cana-de-açúcar.

De acordo com levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a produção de cana-de-açúcar, estimada para a safra 2019/20, é de 642,7 milhões de ton. Representando um aumento de 3,6% em relação à safra anterior, mesmo com uma redução de 1,3% na área colhida.

O cultivo da cana-de-açúcar é bem adaptado as condições climáticas e de solo brasileiras, o que lhe permite uma excelente eficiência de conversão fotossintética.  Desta maneira, a cultura tem um potencial produtivo que pode chegar as 230 t ha-1, ainda que a produtividade média brasileira seja de apenas 75 t ha-1.

Todos estes fatores juntos, evidenciam o forte potencial de exploração da cultura da cana-de-açúcar, sobretudo, no Brasil. Desta forma, conhecer as principais ferramentas de manejo e tecnologias disponíveis para a cultura são essenciais para quem está pensando em começar a plantar e/ou para quem quer aumentar o seu teto produtivo.

Espécies de cana-de-açúcar

Atualmente, podemos dividir a cana-de-açúcar em pelo menos 5 diferentes espécies. Embora, nem todas elas sejam exploradas comercialmente, cada uma tem peculiaridades que, as tornam extremamente importantes para a composição dos programas de melhoramento da cultura.

 

Saccharum officinarum

Representa a principal espécie de cana-de-açúcar e caracteriza-se por apresentar canas nobres e adaptadas ao ambiente tropical. Além disso, exibe elevado teor de sacarose, porte elevado e colmos espessos.

É uma das espécies mais cultivadas e, por isso, são exigentes em fertilidade do solo,  uma vez que, o seu sistema radicular é reduzido e, são altamente sensíveis a patógenos.

 

Saccharum spontaneum

Exibem colmos curtos, finos e fibrosos. Características que fazem com que o seu teor de açúcar seja menor. Em contrapartida, apresentam perfilhamento vigoroso e abundante.

Além disso, são extremamente resistentes a condições desfavoráveis de clima, desenvolvem-se bem em solos pobre e são resistentes a patógenos.

 

Saccharum sinensis

Esta espécie é mais cultivada nos países asiáticos. As plantas têm como características principais o porte elevado, colmos finos e fibroso, teor mediano de açúcar e raízes fortes e abundantes.

A sua produtividade é mediana e não é uma cana-de-açúcar exigente em fertilidade do solo.

 

Saccharum barberi

Caracteriza-se por ser uma espécie de elevada rusticidade, fator condicionado devido ao seu baixo porte, colmos estreitos, fibrosos e teor reduzido de sacarose. Além disso, são consideradas como canas precoces e de produtividade média.

Aliado a isso, esta espécie de cana-de-açúcar é resistente a condições de clima frio, o que permite o seu cultivo em regiões climáticas restritas a outras espécies.

 

Saccharum robustum

Esta espécie de cana-de-açúcar resulta em plantas de elevado porte, chegando a medir, cerca de, 10 m de altura. Além disso, possuem colmos espessos e muito fibroso, características, que juntas resultam em uma “cana dura”.

Desta forma, os seus colmos são ineficientes no acúmulo de sacarose. Fatores estes, que não permitem a sua indicação para a produção de forragem, já que também apresenta baixa digestibilidade.

Manejo da cana-de-açúcar

Levando em consideração o ciclo produtivo, a cana-de-açúcar pode ser cortada, em média, até 6 vezes durante 5 anos. Em razão disso, é considerada como uma cultura semiperene.

Podemos dividir o cultivo da cana-de-açúcar de acordo com o padrão do corte, ou seja:

  • Cana planta: representa o primeiro corte da cana-de-açúcar em seguida do plantio. Dependendo da cultivar utilizada e do manejo empregado na propriedade, o primeiro corte pode ocorrer aos 12 ou aos 18 meses após o plantio.
  • Cana soca: significa que, após o primeiro corte da cana planta a cultura irá rebrotar. Desta forma, na safra seguinte haverá novamente plantas no canavial, sem a necessidade de replantio, ou seja, a cana estará apta para ser cortada novamente. Se chama “cana soca” porque foi originada da soqueira da safra anterior.

Muitos canavicultores optam pelo primeiro corte da cana planta aos 18 meses. Isto porque, apesar de levar mais tempo e ser mais oneroso, a produtividade é mais elevada. Bem como, os benefícios para o solo, uma vez que, tendem a incluir uma adubação verde para o fornecimento de nutrientes ao solo.

A cana planta colhida aos 12 meses apresenta poucos benefícios. Sendo assim, ela é plantada logo após a colheita da última cana soca, entretanto não inclui a ciclagem de nutrientes no solo e, por isso, a sua produtividade é bem mais baixa.

No entanto, diversos outros fatores podem influenciar a produtividade da cana-de-açúcar, dentre eles, podemos citar:

  • Potencial produtivo da variedade da cana-de-açúcar utilizada.
  • Suscetibilidade e/ou resistência a pragas e patógenos.
  • Altura de corte no momento da colheita.
  • Manejo de plantas daninhas.
  • Manejo das adubações.

Pesquisas indicam ainda que, a cana-de-açúcar responde não só a altura de corte, como também a época de colheita. Fatores que influenciam significativamente o perfilhamento e a produtividade de colmos.

 

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Melhoramento genético da cana-de-açúcar

O melhoramento genético da cana-de-açúcar tem contribuído para sustentar os altos tetos produtivos da cana-de-açúcar no Brasil que, é de, aproximadamente, 75,8 ton ha-1.

As instituições de pesquisas têm investido pesado em programas de melhoramento para a cultura. Que visam o lançamento de genótipos cada vez mais produtivos, resistentes a doenças e pragas e adaptados aos diversos tipos de ecossistemas. Com destaque para:

Atualmente, existem no mercado brasileiro diversas variedades de cana-de-açúcar, com recomendações específicas para cada região, as quais são desenvolvidas por diversas instituições de pesquisas. De acordo com o Registro Nacional de Cultivares, existem cerca de, 250 genótipos registrados.

Como resultado destas pesquisas, recentemente, mais precisamente em 2017, nós tivemos a primeira aprovação de um evento de transgenia para a cana-de-açúcar. O melhor de tudo, é que a tecnologia é 100% nacional.

A cultivar de cana-de-açúcar “CTC20BT” foi desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). O principal avanço se dá pela resistência desta cultivar à broca da cana (Diatraea saccharalis), principal praga que ameaça a cultura.

Além disso, não há necessidade de realizar controle de broca nas áreas de CTC20BT, o que reduz os custos com defensivos. Pois, até o momento a performance da tecnologia mantém a broca em índices abaixo do nível de dano econômico, mesmo nas condições mais favoráveis ao ciclo da praga.

Outros pontos favoráveis dizem respeito a sua adaptabilidade ao plantio mecanizado, perfilhamento elevado e maior número de gemas por hectare.

Espera-se que em um futuro próximo, outras variedades transgênicas sejam desenvolvidas por instituições brasileiras. Com eventos transgênicos para suportar níveis de alumínio tóxico no solo, adaptação a seca e maior teor de sacarose.

Principais doenças na cana-de-açúcar

O manejo fitossanitário da cana-de-açúcar pode ser uma tarefa bastante complexa, frente a diversidade climática existente no Brasil.

De acordo com pesquisadores da Embrapa, cerca de, 216 doenças que podem infectar a cana-de-açúcar. Destas, aproximadamente, 58 podem ser encontradas em território nacional. Porém, apenas 10 representam algum impacto para a cultura. Sendo as principais:

  • Amarelinho: é uma doença ocasionada por um vírus e transmitida por pulgões. Os seus sintomas incluem a coloração amarela (face superior) e arroxeada (face inferior) da nervura central das folhas. O sistema radicular das plantas de cana-de-açúcar é prejudicado, reduzindo o teor de sacarose nos colmos em até 50%.
  • Escaldadura das folhas: é uma doença bacteriana causada por Xanthomonas albilineans. Este patógeno se manifesta através de sintoma de escaldadura, ou seja, é possível observar um aspecto de queimadura do limbo foliar.
  • Estrias vermelhas: doença facilmente identificável devido aos sintomas que causa. Resultado da infecção pela bactéria Acidovarax avenae avenae, as plantas atacadas exibem estrias vermelhas e podridão de topo.
  • Raquitismo da soqueira: como o próprio nome diz, relaciona-se ao tamanho reduzido das soqueiras. Sendo ocasionada pela bactéria Leifsonia xyli xyli.
  • Mosaico: esta doença é ocasionada por uma virose que pode ser facilmente transmitida por pulgões. Além disso, tem potencial devastador no canavial, podendo os prejuízos serem superiores a 80%. Os seus sintomas caracterizam-se pela presença de tons verdes claros e escuros nas folhas jovens.
  • Ferrugem: existem dois tipos de ferrugem que podem infectar a cana-de-açúcar. A ferrugem marrom, causada por Puccinia melanocephala e, a ferrugem alaranjada, causada por Puccinia kuehnii. A principal diferença entre as duas espécies de fungos é exibida pelas diferentes colorações dos seus esporos, conforme a imagem abaixo.
  • Podridão abacaxi: esta enfermidade é resultado da infecção do fungo Thielaviopsis paradoxa, que ocasiona falha as brotações, sobretudo, no inverno. O nome da doença é resultado do odor característico dos toletes infectados, que exalam um cheiro de abacaxi maduro.

Principais insetos-pragas na cana-de-açúcar

A cana-de-açúcar é uma cultura que, reconhecidamente utiliza baixos níveis de defensivos. Entretanto, ela pode sofrer com incidência de determinados insetos-pragas que põe em risco a produção canavieira. Sendo os principais:

  • Broca da cana (Diatraea saccharalis): esta é a espécie de maior impacto a cultura, já que tem ocorrência em todo o país. Pesquisa indicam que, para cada 1% de infestação com a praga (número de entrenós atacados), ocorre um prejuízo de 0,38% na produção de açúcar ou 0,27% na produção de etanol e mais de 1,21% na produção de cana (TCH). O método de manejo mais indicado para esta praga é o controle biológico utilizando os parasitoides Trichogramma e Cotesia flavipes.
  • Bicudo da cana (Sphenophorus levis): este inseto causa os maiores danos a cana-de-açúcar na sua fase de larva. Sendo assim, ele se alimenta dos rizomas e da base do colmo, onde forma galerias e afeta de forma significativa a produtividade e longevidade dos canaviais. Estima-se que esta praga possa reduzir, em média, de 20 a 30 t ha-1.
  • Cigarrinha das raízes (Mahanarva fimbriolata): como o próprio nome já diz, as cigarrinhas localizam-se nas raízes da cana-de-açúcar. Local onde são facilmente identificadas, já que formam uma espuma característica na base do colmo, onde se alimentam e se desenvolvem até atingir a fase adulta. Sob condições de alta infestação, esta praga pode reduzir até 25% da produtividade do canavial. Até o momento, a melhor forma de controlar esta praga é através da utilização de controle biológico com o fungo Metarhizium anisopliae.
  • Broca gigante (Telchin licius): este inseto também afeta a cultura durante a sua fase larval. Os seus prejuízos ocorrem em função de alimentar-se dos colmos da cana-de-açúcar. Onde ocasiona o sintoma de “coração morto”, gerando falhas nas brotações das soqueiras. Desta forma, a broca gigante reduz a vida útil do canavial, sendo necessária a renovação do mesmo de forma antecipada.

 

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