A adubação verde é uma prática agrícola conhecida desde antes da era Cristã por gregos, romanos e chineses e seus benefícios são amplamente conhecidos e divulgados.

Entretanto, essa prática ainda é pouco utilizada pelos agricultores brasileiros, sobretudo dos produtores de grãos e fibras, por uma série de razões que vão desde motivos de cunho comercial, como o intenso trabalho de marketing das empresas de fertilizantes minerais, até dificuldades técnicas, como o intervalo restrito de tempo para o cultivo do adubo verde entre a colheita da safra de verão e a semeadura do trigo.

Mas qual é a definição de adubos verdes?

De acordo com a Embrapa:

Adubação verde é a utilização de plantas para a melhoria das condições físicas, químicas e biológicas do solo.

Para o pesquisador Ademir Calegari, um dos mais respeitados nesta área,

O adubo verde pode ser definido como a planta cultivada, ou não, de preferência uma leguminosa (devido à capacidade de fixação biológica do nitrogênio), com a finalidade de elevar a produtividade do solo com sua massa vegetal, produzida no local ou trazida de fora.

Diversas leguminosas têm sido utilizadas como adubos verdes na região do Cerrado, entre elas o guandu (Cajanu cajan (L.) Millps), as crotalárias (Crotrolaria juncea L., Crotolaria ochroleuca G. Don, Crotalaria paulina Schrank e Crotolaria spectabilis Roth), as mucunas (Mucuna cinereum L., Mucuna deeringanum (Bort.) Merr., Mucuna aterrima (Piper & Tracy) Merr.), o feijão-de-porco (Canavalia ensiformis (L) DC), o feijão-bravo-do-ceará (Canavalia brasiliensis Mart.) e as ervilhacas (Vicia sativa L., Vicia villosa Hoth, Vicia benghalensis L.).

Dependendo do sistema de produção adotado pelo agricultor, a adubação verde pode estar associada a rotação, consorciação ou sucessão com outras culturas, sendo possível, inclusive, que as espécies vegetais utilizadas na adubação verde sejam incorporadas ao solo ou mantidas na superfície.

Neste caso, os objetivos do produtor rural são diferentes. Veja os exemplos:

  • Adubação verde incorporada ao solo: possível de ser realizada apenas no cultivo convencional e quando os objetivos são aumentar os teores de matéria orgânica no solo e a rápida mineralização dos nutrientes.
  • Adubação verde mantida em superfície: utilizada, preferencialmente, sob Sistema de Plantio Direto ou cultivo mínimo do solo. Neste caso, o objetivo é que os nutrientes sejam disponibilizados no solo de forma gradativa.

Independente da incorporação ou não ao solo, de modo geral, as plantas utilizadas para a adubação verde não chegam ao final do seu ciclo, pois como o próprio nome diz, são as plantas “verdes” quem fornecem os benefícios.

Além disso, a produção de sementes pelos adubos verdes pode se tornar um problema na área, tornando-se uma planta daninha na lavoura cultivada em sucessão.

Desta forma, as plantas podem ser incorporadas ainda verde ao solo, ou antes que atinjam seu estádio reprodutivo. Ou ainda, podem ser dessecadas para serem mantidas sobre o solo.

Alguns produtores têm aderido ao sistema de semeadura sobre as plantas de adubação verde. Desta forma, as plantas não são dessecadas e permanecem sobre o solo.

Apesar do amplo conhecimento sobre os benefícios da adubação verde, ainda se percebe um baixo nível de adoção por parte dos agricultores. Especialistas acreditam que este fato ocorre em função da falta de tradição em utilizar essa técnica de manejo.

Por isso, vamos disponibilizar neste artigo conhecimento básico para que agricultores e Engenheiro Agrônomos entendam um pouco mais a respeito da adubação verde.

Benefícios da adubação verde para o solo

Quando manejada corretamente, a adubação verde proporciona inúmeros benefícios ao solo, atuando na melhoria de:
 

Características químicas do solo

Nos solos agrícolas, que são utilizados intensivamente, frequentemente se percebe o esgotamento de alguns nutrientes. A partir da adoção da adubação verde é possível observar melhorias significativas nos teores dos nutrientes e, principalmente, da matéria orgânica, em função do aporte de elevadas quantidades de biomassa verde ao solo.

Além disso, quando se utiliza leguminosas, nota-se que ocorre um aumento significativo na CTC (Capacidade de Troca de Cátions) do solo. Desta forma, as perdas de nutrientes, principalmente, o nitrogênio (N), por lixiviação são reduzidas.

Sendo assim, o emprego de plantas leguminosas beneficia ainda os teores de N ao solo. Por se tratar de plantas fixadoras neste elemento, elas disponibilizam N para as culturas subsequentes.

 

Características físicas do solo

Nos solos descobertos, a erosão corresponde à principal causa da perda de produtividade em áreas agrícolas, pois provoca a eliminação das camadas superficiais do solo, que são as mais ricas nutricionalmente.

Neste sentido, torna-se necessário a cobertura do solo em áreas com propensão a erosão, bem como em regiões com elevadas taxas de precipitação pluvial, uma vez que o processo erosivo é acelerado quando o solo fica descoberto e exposto às chuvas.

A adubação verde também é indicada nestes casos, visto que além de manter o solo protegido, promove a melhoria na formação dos agregados do solo e, consequentemente, promove também uma maior taxa de infiltração das águas das chuvas.

 

Características biológicas do solo

A atividade microbiana dos solos agrícolas também é beneficiada pela adubação verde. Isso ocorre em função de alguns fatores:

  • Disponibilização de resíduos culturais, que funcionam como fonte primária de energia e nutrientes aos micro-organismos benéficos.
  • Manutenção da umidade do solo.
  • Diminuição das oscilações e da amplitude térmica do solo.

Como consequência, estes micro-organismos beneficiam a qualidade do solo através da reciclagem de micro e macronutrientes, permitindo um melhor aproveitamento dos adubos químicos aplicados diretamente nos solos.

Devido à melhoria da qualidade do solo, micro-organismos benéficos desenvolvem-se naturalmente com maior facilidade.

Dentre eles, os micro-organismos responsáveis pelo controle biológico de doenças de solo, como:

  • Trichoderma
  • Bacillus

Adubação verde utilizando leguminosas

As leguminosas são as plantas que trazem os maiores benefícios à adubação verde. Isto se dá devido à capacidade que estas plantas têm de fixar o nitrogênio atmosférico no solo.

Na verdade, esse é o ponto crucial da adubação verde, pois com isso se reduz a necessidade de adubações nitrogenadas, que são baseadas, na maioria das vezes, em compostos como a ureia.

Neste sentido, quando a ureia é fornecida em doses elevadas, pode haver a acidificação do solo. Além disso, pode ocorrer a perda de nitrogênio por volatilização, escoamento superficial da ureia ou percolação.

Resumidamente, pode-se dizer que, em diversos casos, a ureia é perdida e o nitrogênio não é disponibilizado de forma adequada e em quantidades suficientes as plantas.

Esse problema não ocorre quando as leguminosas são utilizadas com o objetivo de fornecer nitrogênio via adubação verde.

Outro ponto positivo da adubação verde utilizando leguminosas é possibilidade da sua associação com as bactérias Bradyrhizobium spp. e Rhizobium spp. Estes micro-organismos são os mais utilizados comercialmente na atualidade.

Esta associação é a responsável pela disponibilização biológica do nitrogênio nos solos agrícolas. Na prática, estas bactérias são responsáveis pela formação dos nódulos, os quais se encontram presentes nas raízes, local onde ocorre a fixação do nitrogênio atmosférico.

Por isso, recomenda-se que a inoculação com as bactérias nas sementes seja realizada momentos antes da semeadura. Principalmente, quando a adubação verde é implementada pela primeira vez em uma área. Isto garante uma boa disponibilidade de nitrogênio para o solo.

As bactérias utilizadas como inoculantes de leguminosas podem ser facilmente adquiridas em lojas agropecuárias. Entretanto, deve-se observar que cada inoculante comercial é específico apenas para algumas espécies de leguminosas.

Desta forma, deve-se observar sempre as recomendações dos fabricantes.

Apesar da adubação verde ocorrer de forma natural nos solos agrícolas, deve-se observar que algumas estratégias de manejo causam impactos diretos na fixação biológica de N.

Portanto, recomenda-se evitar a aplicação de defensivos químicos nas sementes inoculadas. Muitas vezes, as sementes comerciais vêm tratadas com fungicidas diretamente da fábrica.

Nestes casos, deve-se atentar para uma possível incompatibilidade entre os produtos.

 

Técnicas de Vendas e Marketing no Agronegócio
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Escolha das espécies de adubos verdes

Atualmente, o agricultor encontra no mercado uma enorme variedade de plantas possíveis de serem empregadas na adubação verde. Entretanto, como já evidenciamos, as leguminosas são as plantas mais indicadas.

Apesar de parecer simples, a escolha da espécie a ser utilizada na adubação verde requer alguns cuidados, pois cada espécie possui exigências específicas, as quais dizem respeito a fertilidade do solo, clima e estação.

Sendo assim, as espécies mais recomendadas para a adubação verde, são as que se desenvolvem bem na sua região.

Abaixo nos listamos algumas espécies para utilização na adubação verde, bem como as condições ambientais mais indicadas.

 

Adubos verdes recomendados para regiões de solo úmido

  • Capim pojuca (Paspalum atratum)
  • Centrosema (Centrosema pubescens e acutifolium)
  • Desmódio (Desmodium ovalifolium)
  • Puearia ou cudzu tropical (Pueraria phaseoloides)

 

Adubos verdes recomendados para regiões frias

  • Caupi (Vigna unguiculata)
  • Ervilha forrageira (Pisum sativum arvense)
  • Ervilhaca (Vicia sativa)
  • Feijão Moyashi (Vigna radiata)
  • Feijão-bravo do Ceará (Canavalia brasiliensis)
  • Nabo forrageiro (Raphanus sativus)

 

Adubos verdes recomendados para regiões secas

  • Gliricídia (Gliricidia sepium)
  • Tremoço-branco (Lupinus albus)

 

Adubos verdes recomendados para condições de sombra

  • Capim Massai (Panicum maximum)
  • Centrosema ( pubescens e C. acutifolium)
  • Desmódio ( canadense)
  • Estilosantes (Stylosanthes)
  • Puearia ou cudzu tropical ( phaseoloides)
  • Leucena (Leucaena leucocephala)
  • Siratro (Macroptilium atropurpureum)

 

Adubos verdes recomendados para solos nutricionalmente pobres:

  • Amendoim-forrageiro (Arachis pintoi)
  • Crotalária (Crotalaria juncea, spectabilis, C. ochroleuca etc)
  • Feijão-guandu (Cajanus cajan)
  • Mucuna-preta (Stizolobium aterrimum ou Mucuna aterrima)
  • Puearia ou cudzu tropical ( phaseoloides)
  • Siratro ( atropurpureum)
  • Tremoço-branco ( albus)

Outro fator a ser considerado no momento da escolha da espécie de adubo verde é o tamanho da semente. Este fator pode ser restritivo em algumas áreas.

Adubos verdes de sementes pequenas devem ser semeados em locais com solo bem preparado, de modo que fiquem recobertas apenas por uma fina camada de terra. Pois, quando o solo está mal preparado, podem ocorrer falhas na emergência.

Desta forma não haverá uma boa cobertura do solo e adubação verde torna-se ineficiente.

Como incluir a adubação verde em um Sistema de Produção Agrícola

Conforme a estação do ano e a finalidade, a adubação verde pode ser implementada de diversas formas na lavoura. Veja abaixo alguns exemplos de aplicações.

 

Primavera/verão

De modo geral, essa adubação verde é fornecida por meio de plantas semeadas para a safra de verão. Durante este período, as condições ambientais são favoráveis ao desenvolvimento das plantas.

Na primavera/verão, o clima se caracteriza pela ocorrência de boas precipitações pluviais associadas a temperaturas mais altas, fatores que favorecem a geração de biomassa e, consequentemente, elevado aporte de nitrogênio.

Entretanto, este período também é o mais indicado para a safra das culturas de grãos, fibras e bioenergia.

Por isso, recomenda-se que o agricultor realize um rodízio nos talhões, rotacionado as culturas de grãos com as plantas de adubação verde.

 

Outono/inverno

Neste período, ocorre a semeadura das culturas de inverno. Neste caso, as plantas protegem o solo dos talhões que não são cultivados neste período.

O plantio no outono/inverno promove uma redução na infestação de plantas daninhas, favorece a cobertura do solo, promove o aumento dos teores de matéria orgânica no solo e, quando utilizadas plantas leguminosas, fornece nitrogênio ao sistema.

No entanto, durante estes meses as condições ambientais não são tão favoráveis e, como consequência, a produção de biomassa dos adubos verdes é reduzida.

 

Consócio com culturas perenes

As culturas perenes também podem ser beneficiadas pela adubação verde.

Neste caso, os adubos verdes são cultivados entre as fileiras de plantas da cultura principal.

A principal vantagem deste sistema está na manutenção de uma cobertura de solo permanente. Desta forma, não há a necessidade de nova semeadura a cada ano.

Resultados da adubação verde em culturas de grande escala

O cultivo do arroz de terras altas tem crescido no cerrado, principalmente sob o Sistema Plantio Direto, um sistema de produção bem diferente do utilizado no sul do país, que produz cerca de 70% do arroz nacional sob sistema irrigado.

Para que se alcancem altas produtividades é necessário o fornecimento de pelo menos 100 kg ha-1 de nitrogênio, aplicados em diferentes momentos no manejo da cultura do arroz.

Pesquisas recentes tem demonstrado a contribuição da adubação verde na disponibilização de nitrogênio para o arroz produzido no cerrado brasileiro.

Estudos comparativos permitiram observar que, em sistema de rotação com milho + guandu a produção de arroz foi beneficiada. Isto ocorreu em função de uma maior oferta de nitrogênio via ciclagem, em relação à rotação com milho solteiro.

Neste estudo, a associação de milho + guandu possibilitou uma produção de 5,7 t ha-1 de grãos de arroz, enquanto o milho solteiro produziu 4,9 t ha-1, ou seja, houve um aumento de cerca de 16% de produtividade.

Os adubos verdes também são amplamente utilizados no momento na renovação do canavial, principalmente, a espécie Crotalaria juncea.

Esta escolha ocorre em função das amplas extensões plantadas. Desta forma, a adubação verde disponibiliza N, reduzindo a necessidade de fertilizações nitrogenadas, ou seja, reduz o custo da lavoura.

Estudos recentes relatam que, a rotação com crotalária proporcionou incrementos no perfilhamento da cana-de-açúcar nos meses iniciais após o plantio.

Além disso, a mesma pesquisa enfatiza que a rotação com crotalária tem potencial para proporcionar aumentos produtivos na cultura da cana, bem como reduzir os gastos com adubos químicos.

O cultivo de adubos verdes antecedendo a cultura do trigo resulta em maior número de grãos por espiga de trigo, maior massa de mil grãos e em maior produtividade da cultura do trigo, ou seja,  é possível afirmar que maiores produtividades na cultura do trigo são obtidas quando ele é cultivado após crotalária e ervilhaca peluda, e que a resposta do trigo à aplicação de N mineral em adubação de cobertura varia em função da cultura antecessora.

Outro resultado interessante foi observado na cultura do milho, que não respondeu à adubação nitrogenada de cobertura quando cultivado após a ervilhaca-peluda (Vicia Villosa) em um experimento realizado em Dourados-MS, e ainda obteve as maiores produtividades do experimento.

Isso significa que todo o nitrogênio necessário para produção de milho foi fornecido pela ervilhaca-peluda. Por causa disso, os pesquisadores puderam concluir que a dose de nitrogênio que proporciona maior lucro na cultura de milho depende da cultura antecessora e, ainda que os adubos verdes proporcionam maior lucro na cultura de milho, com menor utilização de insumos.

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