O trigo mourisco é um vegetal que pertence a espécie Fagopyrum esculentum Moench e também é conhecido popularmente como trigo mouro, trigo sarraceno ou trigo preto.

O trigo mourisco compõe a família Polygonaceae e por isso, não possui nenhum parentesco com o trigo hexaploide comum (Triticum aestivum L.), que pertence à família Poaceae.

Até mesmo a região de origem dos dois trigos é diferente.

Enquanto o trigo comum teve origem no sudeste da Turquia, o trigo mourisco é originário da Ásia Central.

Além disso, durante a domesticação dos cerais, o trigo mourisco provavelmente foi cultivado por populações nômades, em razão do seu curto período vegetativo, que é de aproximadamente, 90 dias.

O trigo mourisco e o trigo comum podem ser produzidos como culturas de inverno no Brasil.

Como características principais, nota-se que o trigo mourisco é uma espécie herbácea anual, com caule ereto, apresentando folhas alternadas, sésseis e sagitadas.

As plantas de trigo mourisco podem atingir de 20 a 60 cm de altura. Na extremidade do seu caule surgem flores esverdeadas em cachos provenientes da axila das folhas.

Ao amadurecer, as inflorescências atingem cerca de 3 mm de comprimento e adquirem coloração branca ou rosa, dependendo da variedade.

Os grãos oriundos do trigo mourisco têm de 4 a 6 mm de comprimento e, em média, 3 mm de largura.

Estes grãos são comestíveis, entretanto, a sua casca é extremamente dura e representa cerca de 30% do seu peso seco.

Antes de ser consumido, a casca precisa ser removida dos grãos. Isso ocorre através de um processo muito semelhante a moagem dos grãos de trigo e aveia.

De forma geral, os grãos do trigo sarraceno se assemelham aos dos cerais, diferindo principalmente devido à ausência de glúten e pela presença de rutina.

Atualmente, o trigo mourisco pode atingir produtividades de até 3,6 toneladas por hectare, sendo bastante cultivado na região sul do Brasil.

Utilizações do trigo mourisco

 O trigo mourisco ou trigo sarraceno é uma planta de múltiplas aptidões. Na agricultura, ele é utilizado em função de características, como:

  • Excelente tolerância a baixo pH e nível de alumínio tóxico (Al3+) no solo.
  • Apresenta boa capacidade para a utilização dos sais de fósforo (P) e potássio (K), os quais são pouco solúveis no solo.
  • Desenvolvem-se relativamente bem em solos nutricionalmente pobres.
  • São excelentes fontes de adubo verde, sendo utilizados inclusive para a regeneração de solos esgotados.
  • Auxiliam no manejo de plantas daninhas de difícil manejo.
  • Atuam como supressores de nematoides, etc.

Além disso, o trigo mourisco possui um período de floração de, aproximadamente 40 dias e, por isso, é bastante atrativo a abelhas melíferas.

Pesquisas antigas relatam que o mel oriundo de colmeias localizadas em plantações de trigo mourisco possui atividade bactericida.

Na produção animal, o trigo sarraceno pode ser utilizado na alimentação de bovinos, coelhos, ovinos, caprinos, suínos e aves.

Na prática, pode-se fornecer os próprios grãos aos animais, entretanto, para equinos e bovinos tem-se dado preferência ao fornecimento na forma de feno ou silagem.

O trigo mourisco também é uma alternativa em períodos de escassez e alta no preço de alimentos que compõem a dieta animal, podendo ser utilizado como:

  • Substituto do milho para a alimentação de suínos em terminação (até 50%).
  • Na composição de rações de frango de corte (até 60%).
  • Na composição da dieta de coelhos (até 60%).

Apesar de ter uma ampla gama de utilizações no campo, o trigo mourisco também tem um excelente potencial para ser aproveitado como matéria prima para a alimentação humana.

Seu elevado potencial se dá em função de suas qualidades nutricionais, pois é livre de glúten, possibilitando o seu consumo por pessoas celíacas, ou seja, que sofrem com uma reação imunológica à ingestão de glúten.

O glúten é uma proteína encontrada em abundância em cerais como, trigo comum, cevada e centeio, o que restringe a dieta de muitas pessoas que sofrem com essa doença.

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Benefícios do trigo mourisco a saúde humana e animal

Em virtude de não conter glúten, o trigo mourisco é uma excelente alternativa para portadores da doença celíaca.

Além disso, ele possui um maior teor de proteína do que o trigo comum, o arroz, ou o milho.

É fonte de ferro (Fe), manganês (Mn) e magnésio (Mg).

Estima-se que, 200 mL de mingau feito com o trigo sarraceno contenha, aproximadamente, cerca de 86 mg de magnésio, sendo este mingau, rico em proteínas, de grande valor biológico, por possuir em sua composição aminoácidos essenciais, como a lisina.

Os seus efeitos benéficos ainda podem ser associados à presença de flavonoides, especialmente, rutina (anteriormente chamada de vitamina P) e quercetina.

Os flavonoides tem ação na prevenção de doenças, além de atuarem como antioxidantes.

Estudos recentes têm associado a rutina com:

  • Melhoria no sistema circulatório.
  • Prevenção de formação de coágulos.
  • Redução nos níveis de colesterol, etc.

Devido a tantos benefícios, uma dieta rica em grãos, como os do trigo mourisco, por exemplo, tem potencial na prevenção doenças cardiovasculares, aterosclerose, obesidade, diabetes, entre outros.

Isto se dá em função do seu elevado teor de fibras e diversos compostos, como as gorduras poli-insaturadas.

Dietas em que são consumidos pelo menos 100 g de trigo sarraceno diariamente apresentam potencial para diminuir os níveis do “mau colesterol” ou LDL e para aumentar os níveis do “bom colesterol” ou HDL.

Quando destinado a nutrição animal, o trigo mourisco apresenta excelente qualidades nutricionais, como pode ser observado abaixo:

  • Matéria seca (MS), em torno de 87%, ou de 2200 a 4400 kg MS/ha.
  • Energia bruta (EB), em torno de 3.863 kcal/kg.
  • Proteína bruta (PB), variando de 9 a 24%.
  • Extrato etéreo (EE), de aproximadamente 2%.
  • Fibra bruta (FB), de quase 10%.
  • Fibra em detergente neutro (FDN), de 40% a 58%.
  • Matéria mineral (MM), de aproximadamente 2%.
  • Cálcio (Ca), em torno de 0,10%
  • Fósforo total (P), em torno de 0,34%.

Apesar de excelentes teores de EB, MM e P, as informações nutricionais do trigo mourisco ainda são inferiores aos do farelo de trigo.

Entretanto, exibem teores semelhantes de FB e Ca.

No inverno, a oferta de alimento para os animais é mais escassa, principalmente nas regiões mais frias do Brasil.

Por isso, ensaios comparativos avaliaram a produção e qualidade da forragem de trigo mourisco cultivado no inverno.

Estes estudos permitiram a observação de que a partir dos 50 dias de crescimento, a forragem do trigo sarraceno foi maior do que a do milheto e da aveia, sugerindo que o trigo mourisco é indicado para plantio no início da estação fria, para posterior alimentação de ruminantes neste período.

Produção de trigo mourisco no Brasil

O trigo mourisco é utilizado como fonte de alimento há centenas de anos, entretanto, somente foi introduzido no Brasil início do século 20.

A sua introdução se deu através de imigrantes poloneses, russos e alemães, na região Sul.

Atualmente, são bastante escassos os dados e informações a respeito da produção de trigo mourisco no Brasil, em função do seu cultivo para a produção de grãos, ainda ser pouco expressivo.

Além disso, estima-se que a produtividade brasileira não passe de uma tonelada por hectare, mesmo sabendo que a cultura tem potencial para alcançar, cerca de 3,6 toneladas por hectare.

A sua maior utilização se dá como planta de cobertura e adubo verde, em função do seu bom desenvolvimento em solos pobres.

O trigo mourisco também se destaca no controle de plantas daninhas, tanto de espécies monocotiledôneas, quanto dicotiledôneas, decorrente da sua utilização como cultura de cobertura.

Agricultores do Centro-Oeste optam pela utilização do trigo mourisco na sucessão de culturas de grãos como soja, milho e sorgo.

Esta escolha ocorre devido a capacidade que esta planta tem para se desenvolver em regiões com baixa umidade, tornando-a ideal para a semeadura na safrinha e a rotação de culturas em áreas de cultivos extensivos.

Muitos agricultores mato-grossenses estão utilizando o trigo mourisco no mix (também conhecido como coquetel) de plantas de cobertura, sendo semeado inclusive em consórcio com a cultura do milho safrinha, às vezes consorciado também com crotalária e com o capim-braquiária.

Já os agricultores da região Sul, preferem utilizar o trigo mourisco após a colheita da cultura de verão, que geralmente é milho ou soja, por ser uma excelente opção para anteceder a implantação de culturas de inverno como trigo, cevada ou aveia.

Além disso, o trigo sarraceno é pouco exigente em nutrição mineral, especialmente nitrogênio (N), podendo, inclusive, fornecer até 100 kg de N por hectare.

A produção de trigo mourisco no Brasil, tem como principais vantagens:

  • Possibilidade de realizar mais de uma safra por ano
  • Apresenta rápido crescimento, produzindo boa quantidade de matéria fresca
  • Pode ser utilizada como forrageira, permitindo até 3 cortes
  • Boa tolerância ao frio e ao calor

A população recomendada pode variar de 300 a 800 plantas por metro quadrado, o que pode resultar em populações de 3.000.000 a 8.000.000 de plantas por hectare. Entretanto, existem ainda poucos estudos sobre a densidade ideal de plantas para o trigo sarraceno.

Pode-se ainda utilizar populações de plantas ainda maiores quando o objetivo é a cobertura do solo e/ou a supressão de plantas daninhas.

O Peso de Mil de Sementes (PMS) da cultura é de cerca de 30 gramas, o que resulta em um consumo de 90 kg de sementes por hectare, para uma população de 3.000.000 de plantas por hectare.

Quando utilizado em mix (ou coquetel), em consórcio com outras espécies vegetais, pode-se utilizar em torno de 40 kg ha-1 de sementes de trigo sarraceno.

Trigo mourisco na supressão de nematoides

Nos últimos anos, a agricultura brasileira baseada em monoculturas como algodão e soja, tem crescido de modo acelerado.

Entretanto, o plantio de uma mesma cultura, ano após ano, em uma mesma área ocasiona diversas dificuldades de manejo, que ocorrem em função da presença de fitopatógenos com potencial para sobrevier de uma safra para outra.

Na soja e no algodão, existem diversos relatos sobre os prejuízos ocasionados em função da presença de nematoides de difícil controle nas áreas agrícolas.

Estes nematoides podem induzir a formação de sítios de alimentação na região do sistema radicular destas plantas e, com isso, causar galhas que reduzem ou bloqueiam completamente a translocação de água e nutrientes para a parte aérea, bem como resultam em um menor desenvolvimento do sistema radicular, reduzindo, desta forma, a produtividade das lavouras.

Atualmente, são poucas as alternativas para a rotação de culturas, pois grande parte das espécies utilizadas também são suscetíveis ao ataque de nematoides.

É neste cenário que o trigo mourisco se destaca como uma boa opção para utilização na rotação de culturas, com o objetivo de quebrar o ciclo de desenvolvimento e multiplicação dos nematoides.

O mecanismo de ação do trigo mourisco envolve a produção de exsudatos radiculares, que inibem o desenvolvimento de nematoides e, por este motivo, é conhecido como uma planta supressora.

O trigo mourisco também é rico em taninos, substâncias com ação anti-helmíntica, que atuam reduzindo a fertilidade de nematoides fêmeas, consequentemente, reduzindo a sua taxa de reprodução.

Outro ponto positivo se dá pelo fato do trigo mourisco ser uma espécie de família diferente da maioria das plantas cultivadas, que associado ao seu curto período vegetativo, torna-o um excelente aliado no manejo de nematoides.

Além de atuar como planta supressora, estudos recentes indicam que o trigo mourisco também suporta o crescimento de nematoides causadores de lesões em raízes (Pratylenchus penetrans).

Para o nematoide das galhas (Meloidogyne incognita), o trigo mourisco tem capacidade para inibir mais de 90% de indivíduos em fase juvenis do segundo estádio.

Sendo assim, além de reduzir a fertilidade de Pratylynchus, o trigo mourisco reduz o número de formas juvenis de M. incognita, proporcionando dois mecanismos de controle diferentes no combate aos nematoides.

Nematoides dos gêneros Pratylynchus e Meloidogyne estão disseminados nos grandes centros de produção agrícola, pois infectam espécies de plantas como algodão, arroz, cana-de-açúcar, feijão, fumo, eucalipto, milho, soja, sorgo e trigo.

Sendo assim, torna-se uma tarefa difícil encontrar uma espécie de planta, como o trigo mourisco, que possibilite o seu uso no Sistema Plantio Direto e que não seja suscetível a Pratylynchus spp. e Meloidogyne spp.

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