A escarificação do solo é uma prática agrícola que ainda causa muitas dúvidas em agricultores, estudantes e engenheiros agrônomos.

E ela está diretamente ligada à existência de compactação do solo.

Você diagnosticou ou desconfia da ocorrência de compactação do solo na lavoura?

A compactação é um dos processos degradadores e restritivos da produtividade agrícola mais comuns.

Ela é ruim para os cultivos agrícolas porque representa maior resistência à penetração (RP) de raízes, diminuindo a capacidade das plantas de absorverem água e nutrientes e, consequentemente, limitando o seu crescimento.

São diversos os fatores que contribuem para a formação de camadas compactadas no solo das lavouras.

Dentre eles, destaca-se o tráfego de máquinas pesadas, principalmente, em condições de umidade inadequada.

O diagnóstico da compactação, geralmente, é realizado por meio da avaliação da RP.

Uma maneira de resolver esse problema é a execução de escarificação do solo.

A escarificação do solo também é utilizada para promover a descompactação de áreas naturais ou agrícolas previamente à implantação do Sistema de Plantio Direto (SPD).

Como o SPD preconiza o revolvimento mínimo do solo, antes da sua implantação é recomendado que seja assegurada a inexistência de compactação ou adensamento.

A escarificação mecânica do solo consiste em revolver o solo até a profundidade de, aproximadamente, 30 cm com implemento chamado de escarificador, visando o rompimento de camadas compactadas.

Essa prática é diferente das operações de gradagem e aração, ocasionando efeitos peculiares no solo.

Algumas culturas como o nabo forrageiro possuem sistema radicular vigoroso, sendo capazes de executar uma função semelhante à de um escarificador mecânico.

Por isso, elas são chamadas de escarificadoras biológicas.

Essa é uma alternativa que traz alguns benefícios, os quais serão demonstrados nesse texto, em relação à escarificação mecânica do solo.

Por fim, o resultado que esperamos é ter uma lavoura apresentando solo fértil e com ótimas condições de aeração, disponibilidade e retenção de água.

Sendo assim, se você gostaria de ampliar o conhecimento sobre escarificação do solo, continue a leitura!

Escarificação do solo como estratégica de descompactação do solo

A escarificação do solo almeja extinguir camadas compactadas no solo para que seja criado um ambiente favorável à expansão radicular das plantas.

A compactação em lavouras é comum, sendo uma das principais preocupações durante as práticas de manejo do solo.

O trânsito de máquinas agrícolas pesadas é praticado, comumente, em condições de umidade inadequada.

Isso ocorre porque os períodos de tempo para a semeadura podem ser curtos para que a lavoura seja implantada na época correta.

Como não podemos controlar as datas e as intensidades de chuva, o excesso de umidade pode tornar a janela para semeadura ainda mais estreita.

Por isso, muitos produtores acabam optando por entrar com as máquinas na lavoura ainda com solo úmido, ocasionando a compactação do solo.

Você precisa evitar esta prática sempre que possível, pois ela acarreta prejuízos em termos de produtividade das culturas e implicará em necessidade de gastos com o revolvimento do solo.

Esse revolvimento do solo pode ser efetuado por escarificação mecânica, por escarificação biológica ou pela associação das duas práticas.

No caso da escarificação biológica do solo, possivelmente, a lavoura deverá ser ocupada por um período de tempo por culturas alternativas, as quais possuem vasto e agressivo sistema radicular.

Nesse caso, você precisará inserir essas culturas no sistema de rotação da lavoura.

Existem diferentes formas de diagnosticar a ocorrência de compactação do solo.

A mais comum e prática é a executada por meio de aparelho capazes de medir a RP, chamados de penetrômetros.

Quanto maior a RP, mais compactado está o solo.

O valor de 2 MPa é utilizado como referencial para interpretação da RP.

Consideramos que acima desse valor há restrição ao crescimento e desenvolvimento das plantas.

Deste modo, é necessário que você adote estratégias de descompactação como a escarificação do solo sempre que os valores de RP estivem elevados, sendo superiores a 2 MPa.

Além disso, na ocasião de implantação do SPD a partir de áreas naturais ou agrícolas, recomenda-se realizar escarificação mecânica do solo.

Impactos da escarificação em atributos químicos do solo

A principal diferença entre a aração e gradagem da escarificação mecânica do solo, além do tipo de implemento utilizado, é a profundidade do revolvimento.

O arado e a gradagem promovem o revolvimento da camada superficial de 15 ou 20 cm do perfil do solo.

Os objetivos dessas operações, dentre outros, é promover um leito de semeadura favorável à germinação e crescimento inicial das plantas.

Porém, culturas como a soja exploram, majoritariamente, os primeiros 40 cm do perfil do solo.

Sendo assim, a criação de camadas subsuperficiais compactadas abaixo da profundidade de ação de implementos como grades e arados restringe drasticamente a área de exploração das raízes.

A escarificação mecânica do solo, por promover um revolvimento mais profundo, aumenta o volume de solo disponível para crescimento radicular.

Sendo assim, mais água e nutrientes podem ser absorvidos e utilizados pelas plantas, favorecendo a obtenção de produtividades maiores.

Esclarecido isso, podemos considerar que o principal impacto de ordem química induzido pela escarificação mecânica do solo é a alteração da dinâmica de acúmulo e perda da matéria orgânica do solo (MOS).

A escarificação mecânica do solo, por si só, não altera diretamente as características químicas do solo, porém, altera os teores de MOS, os quais influenciam tais características.

Logo após a escarificação mecânica do solo , com o revolvimento, a oxidação da MOS é estimulada, induzindo a diminuição dos seus teores.

Com isso, também se diminui a capacidade de troca de cátions do solo.

Podemos considerar que esses efeitos são semelhantes aos promovidos pelo preparo convencional do solo.

Por outro lado, após a execução da escarificação mecânica do solo, podemos adotar manejo considerados conservacionistas, como o SPD.

Dessa forma, a conservação e aumento da MOS voltam a ser estimulados.

Estima-se que em cerca de 5 anos a MOS pode voltar aos teores iniciais ou ultrapassá-los, dependendo do caso.

 

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Impactos da escarificação mecânica em atributos físicos do solo

Nosso principal objetivo ao executar a escarificação mecânica é interferir nos atributos físicos do solo, principalmente diminuir a RP através da descompactação.

Entretanto, esse revolvimento mais profundo induz uma série de mudanças nos atributos físicos do solo.

Em geral, logo após a escarificação mecânica ocorre o aumento da porosidade total, dos macroporos e diminuição da densidade do solo.

Porém, essas alterações são temporárias, sendo visíveis apenas no primeiro ano após a escarificação mecânica do solo.

As condições de retenção e disponibilidade de água são menos afetadas, porém, com a diminuição da MOS nos primeiros meses após a escarificação do solo, elas provavelmente diminuem.

Além disso, nesse período de estímulo de perda de MOS, a estabilidade de agregados também diminui.

Dessa forma, o solo da lavoura fica mais suscetível a processos de degradação como a erosão do solo.

Com a adoção do SPD, estimulando a recuperação e aumento MOS, os atributos físicos citados voltam a aumentar.

Ademais, com a ausência de novos revolvimentos e com a atividade do sistema radicular das culturas utilizadas, a porosidade total e macroporosidade são mantidas em níveis adequados.

Porém, trata-se de uma porosidade oriunda dos processos de agregação do solo, não somente da ação mecânica de implemento.

Por isso, ela é considerada mais estável, formando o que chamamos de um solo estruturado.

Após todos esses processos, nossas preocupações e cuidados voltam-se a prevenção da ocorrência de nova compactação.

Como você notou, o SPD passa por um processo de construção e suas melhorias necessitam de tempo para serem observadas.

Por isso, sempre que você precisar revolver o solo por meio de escarificação mecânica, estará regredindo na construção desse sistema de manejo.

A escarificação mecânica não pode ser entendida como uma prática causadora de degradação do solo.

Trata-se de uma alternativa viável para quando se diagnosticar a presença de camadas compactadas na lavoura.

Dessa forma, o vilão nessa história são as práticas que geram e aceleram a compactação do solo e que tornam a escarificação mecânica necessária.

Escarificação biológica do solo

A escarificação biológica do solo consiste na semeadura de culturas com sistema radicular profundo e vigoroso, sendo capaz de romper as camadas compactadas no perfil do solo.

O exemplo mais conhecido desse tipo de plantas é o nabo forrageiro.

Essa cultura pertence à família das crucíferas, tendo sistema radicular pivotante e vigoroso.

Não precisamos entender essas plantas capazes de promover a escarificação biológica do solo como substitutas à escarificação mecânica.

Você pode encará-las como alternativas para adoção em rotação com culturas como a soja, milho e algodão, dentre outras.

Nesse sentido, elas servem para tornar desnecessária a escarificação mecânica do solo.

Isso ocorre porque elas podem promover melhorias nos atributos físicos do solo sem o ônus da perda de MOS e com menores gastos.

Em comparação com a escarificação mecânica do solo, podemos dizer que essa prática tem efeito mais duradouro e pode ser executada com maior frequência sem prejuízos.

O solo, após a escarificação mecânica, tende a se reconsolidar naturalmente.

A escarificação biológica do solo tende a incorporar e acumular MOS, formando bioporos e melhorando a drenagem, a agregação e mitigando a compactação.

Além disso, na rotação de culturas, pode auxiliar no controle de pragas, doenças e plantas daninhas.

Devemos evitar cogitar a sua implantação somente quando o problema for detectado, como uma medida corretiva.

O uso de plantas com capacidade de escarificação biológica do solo deve ser promovido sempre que possível, pois os benefícios proporcionados não se reduzem ao controle da compactação.

Escarificação do solo: impactos no crescimento radicular e na produtividade

Fonte: Reinert, D. J., Albuquerque, J. A., Reichert, J. M., Aita, C., & Andrada, M. M. C. (2008). Limites críticos de densidade do solo para o crescimento de raízes de plantas de cobertura em Argissolo Vermelho. Revista Brasileira de Ciência do Solo.

Na figura acima percebemos que as raízes do nabo forrageiro conseguem se desenvolver bem em solo arenoso até a densidade de 1,75 Mg m-3.

Esse valor de densidade do solo foi delimitado como limite crítico para o crescimento de plantas nesse solo.

Entretanto, em densidades muito altas as quais correspondem a RP elevadas (> 2 MPa), mesmo as raízes de plantas como nabo forrageiro podem encontrar dificuldade para crescimento.

Isso fica bem visível na figura ao observarmos o engrossamento e diminuição do aprofundamento das raízes nessa situação.

Portanto, se deixarmos para atuar corretivamente, a compactação do solo pode atingir níveis tão altos que inviabilizem mesmo a implantação dessas culturas.

Nesse caso, somente a escarificação mecânica do solo poderia solucionar o problema.

Influência da escarificação do solo na produtividade das culturas

A escarificação do solo, seja ela mecânica ou biológica, almeja melhorar os atributos físicos do solo e, com isso, descompactar o solo.

Por isso, excluindo todos os outros fatores que afetam a produção, ela é uma prática capaz de alavancar a produtividade das culturas, principalmente em áreas compactadas.

Porém, sabemos que, na prática, a produtividade é afetada por uma ampla variedade de fatores.

Por isso, o planejamento de todas as atividades que envolvem o manejo da lavoura deve estar bem alinhado no seu raciocínio e com seus colaboradores.

Sempre que possível é preferível evitar a ocorrência de compactação, fazendo com que não seja necessário investir em uma prática de manejo trabalhosa que é a escarificação mecânica.

É por isso que a escarificação biológica é tão promissora.

Plantas com esse potencial podem ser incluídas no planejamento da rotação de culturas e, periodicamente, promoverem um revolvimento alinhado com as práticas de conservação.

Essa prática gera a economia de não ser necessário investir no preparo mecânico e o benefício do melhor controle de pragas, doenças e plantas daninhas.

Em estudo conduzido em Botucatu-SP, pesquisadores indicaram que a escarificação biológica aliada à mecânica proporcionou produtividade de 3,75 t ha-1 enquanto que somente a prática da escarificação mecânica ocasiona rendimento de 3,47 t ha-1.

Esse trabalho comprova que a escarificação biológica melhora os atributos físicos do solo e pode aumentar a produtividade.

Porém, em cada região brasileira existem espécies de plantas para este fim, as quais são adaptadas para cada região especifica.

Então cada caso deve ser considerado e planejado isoladamente, de acordo com as suas especificidades.

 

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